Um novo ano letivo começou em meados de fevereiro ou início de março. E com ele novo ano de sofrimento para milhões de crianças deste país. Nossas escolas, em sua absoluta maioria – como sabem os que se preocupam com o tema – são um fracasso. Ensinam não o que as crianças gostariam de aprender, mas o que alguém ou um bando de burocratas decidiu que elas precisam aprender. Em regra, um monte de inutilidades sem nenhuma importância para a vida, mas indispensáveis para o vestibular – aquela infame máquina de triturar jovens.

O meu querido Rubem Alves, que dedicou a vida toda à educação, garante que as escolas odeiam os alunos. Não fosse assim – justifica –, não formariam apenas rebanhos de ovelhas, todas balindo igual, todas pensando igual. Permitiriam que cada criança tivesse os seus próprios pensamentos e não as castigaria por pensar diferente e não ser ovelha de rebanho.

Não por acaso, me comovo toda vez que assisto ao belíssimo filme “Fernão Capelo Gaivota”, calcado na obra de Richard Bach e ainda disponível em DVD. Pobre Fernão, tão sonhador, tão solitário e tão incompreendido!…

A grande Adélia Prado tem opinião semelhante: “Fosse terrorista, raptava era diretor de escola e dentro de três dias amarrava no formigueiro, se não aceitasse minhas condições”.

Coitado do diretor, a culpa não é dele. Nem dos bravos e dedicados professores, tão vítimas – se não mais – quanto os alunos. A culpa é dos projetos, programas e métodos de educação inventados por aqueles burocratas de Brasília, que nunca foram crianças ou simplesmente não gostam de crianças. Por isso, querem transformá-las logo em adultos, entupindo-as de conhecimentos inúteis que logo serão esquecidos, porque – como também ensina Rubem Alves – a mente não guarda o que não lhe interessa e não tem utilidade.

Aconteceu comigo. Nos tempos de grupo escolar, fui obrigado a decorar todos os afluentes, da margem esquerda e da margem direita, do rio Amazonas e a uma enxurrada datas desimportantes da história do Brasil. Depois, no ginásio, fui apresentado ao máximo divisor comum, à regra de três, aos logaritmos e às fórmulas químicas. Para quê? Jamais precisei de uma delas em toda a minha carreira de advogado e jornalista.

“Aprender por aprender é estupidez. Somente os idiotas aprendem coisas para as quais não têm uso” – diz Rubem. E emenda: “Os ditos ‘programas’ escolares se baseiam no pressuposto de que os conhecimentos podem ser aprendidos numa ordem lógica predeterminada. Ou seja: ignoram que a aprendizagem só acontece em resposta aos desafios vitais que estão acontecendo no momento da vida do estudante. E isso explicaria o fracasso das nossas escolas. Tanto quanto o sofrimento dos alunos e a sua justa recusa em aprender”.

Mestre em metáforas, Rubem lança mão de um dito popular, que diz ter grande sabedoria, para ilustrar o seu pensamento. É aquele que diz: “É fácil levar a égua até o meio do ribeirão. O difícil é convencê-la a beber água…”. Explica: “Se a égua não estiver com sede, ela não beberá água, por mais que o dono a obrigue. Mas, se estiver com sede, ela, por vontade própria, tomará a iniciativa de ir até o ribeirão”. Aplicado à educação: “É fácil obrigar o aluno a ir à escola. O difícil é convencê-lo a aprender aquilo que ele não quer aprender…”

Pois é, não aprendem e ainda passam a sentir raiva das escolas.

Toda criança é curiosa por natureza. Quer e gosta de aprender. Só que as escolas tiram-lhe o encanto. Não ouvem nem lhe respondem as perguntas. Preferem atormentá-la com respostas que ela não quer saber, mas que os programas oficiais dizem que ela precisa aprender.

Rubem Alves afirma, como pleno conhecimento de causa, que as crianças têm sede de conhecimento. Mas adverte que “sua sede não se mata com água de um mesmo ribeirão. Elas querem águas de rios, de lagos, de lagoas, de fontes, de minas, de chuvas, de poças…”

Às crianças de hoje, especialmente àquelas deste novo milênio, não basta ensinar o que o passado nos legou. O importante para elas, mais do que qualquer coisa, é que se lhes abra o horizonte aparentemente vazio e as incentive a pensar livremente. E se pais e professores não souberem responder as suas perguntas, já farão muito se não atrapalharem o pensamento delas.

 

Célio Heitor Guimarães é jornalista e consultor jurídico aposentado.

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